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Por Que Cientistas Estudaram um Jejum Completo de 31 Dias em 1912

Em 1912, cientistas da Institui??o Carnegie conduziram o estudo mais rigoroso sobre jejum prolongado j? realizado. Entenda a motiva??o e as descobertas.

FastingInPractice Editors

Por Que Cientistas Estudaram um Jejum Completo de 31 Dias em 1912

Em abril de 1912, um farmac?utico malt?s poliglota chamado Agostino Levanzin chegou ao Laborat?rio de Nutri??o da Institui??o Carnegie, em Boston, e iniciou um jejum completo de 31 dias ? ingerindo apenas ?gua destilada durante todo o per?odo. Uma equipe de cientistas de Harvard e da Carnegie o cercou com equipamentos: um calor?metro de respira??o, instrumentos de an?lise sangu?nea, coleta di?ria de urina, testes de for?a de preens?o, medidas de tempo de rea??o e exames psicol?gicos. Todos os dias, por mais de um m?s, eles mediram o que acontecia com o corpo humano quando a alimenta??o cessava completamente.

O estudo resultante ? A Study of Prolonged Fasting, publicado por Francis Gano Benedict em 1915 ? continua sendo uma das investiga??es mais abrangentes da fisiologia do jejum humano j? realizadas. Mas o que motivou esse experimento incomum? E o que os cientistas esperavam descobrir?

As Perguntas Cient?ficas que Impulsionaram o Estudo

No in?cio do s?culo XX, o jejum tinha uma longa hist?ria na cultura popular de sa?de. Figuras como Upton Sinclair escreviam com entusiasmo sobre seus benef?cios. Jejuadores profissionais ? homens que ficavam sem comer por semanas em palcos p?blicos ? haviam atra?do a aten??o cient?fica ao longo das d?cadas de 1880 e 1890. Giovanni Succi, o mais famoso desses jejuadores profissionais, havia sido estudado repetidamente em Paris, Turim e Berlim.

Mas o estudo cient?fico do jejum prolongado ainda era fragmentado. Pesquisadores haviam medido alguns aspectos do metabolismo durante jejuns mais curtos ou em condi??es menos controladas. O que faltava ? ?rea era um relato ?nico, abrangente e rigorosamente documentado sobre o que acontece com cada aspecto mensur?vel do organismo ? metabolismo, peso, qu?mica sangu?nea, psicologia, fun??o cardiovascular, produ??o renal ? ao longo de um jejum completo de dura??o m?xima.

As motiva??es de Benedict eram m?ltiplas:

Compreender a hierarquia de combust?veis do organismo. Os cientistas sabiam que o corpo usava glicose como combust?vel prim?rio. Mas ainda n?o estava totalmente compreendido, em termos sistem?ticos, com que rapidez os estoques de carboidratos (glicog?nio) se esgotavam durante o jejum, o que ocorria em seguida, quanto de prote?na o organismo degradava em compara??o ? gordura e com que efici?ncia aprendia a poupar prote?na ao longo do tempo. O jejum de 31 dias oferecia a chance de mapear todo o arco da adapta??o metab?lica.

Documentar a cetose cientificamente. A exist?ncia de compostos ?cidos na urina de indiv?duos em jejum ? o que hoje chamamos de corpos cet?nicos ? havia sido observada por pesquisadores anteriores, mas n?o havia sido sistematicamente documentada ao longo de um jejum prolongado do in?cio ao fim. A equipe de Benedict mediu esses compostos diariamente, produzindo um dos primeiros registros cient?ficos controlados de cetose nutricional em um sujeito humano.

Responder ? quest?o de se o jejum prolongado era perigoso. Relatos populares sobre jejum estendido haviam criado tanto defensores entusiastas quanto cr?ticos alarmados. O establishment m?dico geralmente encarava o jejum prolongado com desconfian?a. Um experimento rigoroso e monitorado, com exame m?dico di?rio, poderia responder, com dados cient?ficos, se uma pessoa poderia jejuar por trinta e um dias sem sofrer danos org?nicos perigosos ? e como seriam os marcadores mensur?veis de risco.

Testar o desempenho cognitivo e f?sico durante o jejum. Uma das afirma??es dos defensores do jejum era que a clareza mental e a capacidade f?sica n?o apenas eram mantidas, mas ?s vezes melhoravam durante o per?odo de jejum. A equipe de Benedict elaborou uma bateria de testes psicol?gicos e f?sicos di?rios ? mem?ria de palavras, tempo de rea??o, associa??o de palavras, acuidade visual, for?a de preens?o ? especificamente para medir isso de forma cient?fica, em vez de depender de relatos subjetivos.

Por Que Agostino Levanzin?

A escolha do sujeito foi deliberada. Levanzin, nascido em Malta em 1872, n?o era um participante comum. Tinha forma??o em farm?cia, havia estudado medicina e direito, falava seis idiomas com flu?ncia e tinha um hist?rico comprovado de jejum prolongado ? incluindo um jejum de 37 dias em Malta, durante o qual havia passado de 77,6 kg para 60,8 kg.

Mais importante ainda, ele havia chegado ao jejum por causa de uma doen?a cr?nica pr?pria. Ele descrevia um hist?rico de neurastenia induzida pelo excesso alimentar ? um estado de exaust?o nervosa causado por comer demais e com demasiada frequ?ncia. O jejum havia restaurado sua sa?de quando a medicina convencional n?o conseguira. No ano anterior ao experimento, ele j? havia adotado uma refei??o por dia.

Isso significava que Levanzin estava fisiologicamente adaptado ? restri??o alimentar intermitente, o que o tornava um sujeito excepcionalmente adequado para estudar todo o arco de um jejum prolongado. Uma pessoa sem experi?ncia pr?via em jejum provavelmente teria dificuldades nos primeiros dias de uma forma que poderia comprometer as medi??es cient?ficas posteriores. Levanzin tinha a rara combina??o de credibilidade cient?fica, hist?rico estabelecido de jejum e motiva??o pessoal genu?na ? ele se descrevia como feliz em se submeter ao experimento "pelo benef?cio da humanidade."

Ele tamb?m chegou com uma postura cooperativa em rela??o ?s medi??es, apesar de ter opini?es fortes e uma personalidade pol?mica. Ele entendia o que estava sendo feito e por qu?, e se submeteu a coletas de sangue di?rias, coleta de urina, medi??es com compasso, exames cl?nicos e testes psicol?gicos ao longo dos trinta e um dias.

A Configura??o Experimental

O Laborat?rio de Nutri??o Carnegie em Boston estava equipado com um calor?metro de respira??o ? uma c?mara herm?tica que podia medir o calor produzido por uma pessoa durante o sono, fornecendo uma medi??o direta da taxa metab?lica. Esse era um equipamento de ponta em 1912, e o laborat?rio de Benedict era uma das poucas instala??es no mundo capazes de realizar tais medi??es de forma cont?nua.

Junto ao calor?metro, a equipe coletou:

  • Medi??es di?rias de peso (feitas todas as manh?s ap?s urinar, antes de se vestir)
  • Amostras de sangue analisadas quanto ? composi??o, gravidade espec?fica e altera??es celulares
  • Coleta di?ria de urina medindo nitrog?nio (indicador do catabolismo proteico), corpos cet?nicos, creatinina, ?cido ?rico e excre??o mineral
  • Pulso e press?o arterial aferidos v?rias vezes ao dia
  • Temperatura retal para acompanhar as varia??es da temperatura central do corpo
  • Amostras de ar alveolar (ar das profundezas dos pulm?es) fornecendo um ?ndice do equil?brio ?cido-base
  • Testes di?rios de acetona no h?lito para monitorar a cetose
  • Testes psicol?gicos di?rios realizados em hor?rios padronizados
  • Medi??es de for?a de preens?o usando um dinam?metro de m?o
  • Exame cl?nico m?dico em dias alternados

O sujeito bebia apenas ?gua destilada ? uma escolha controlada que eliminava qualquer conte?do mineral da ?gua, permitindo uma medi??o mais precisa de quais minerais vinham especificamente do catabolismo tecidual.

O per?odo preliminar de tr?s dias antes do jejum estabeleceu medi??es basais para compara??o. Levanzin chegou em 10 de abril de 1912; o jejum teve in?cio em 14 de abril e continuou at? 14 de maio.

O Que os Cientistas Descobriram

Os resultados mapearam o que acontece no organismo com mais precis?o do que qualquer investiga??o anterior:

O esgotamento do glicog?nio levou mais tempo do que o esperado. A combust?o de carboidratos atingiu seu pico de 68,8 gramas no primeiro dia de jejum e diminuiu progressivamente, chegando a aproximadamente 4 gramas por dia entre os dias 10 e 13. Ap?s o dia 13, a combust?o de carboidratos cessou efetivamente ? o organismo havia esgotado completamente seus estoques de glicog?nio. Esse prazo de 13 dias para o esgotamento completo do glicog?nio foi maior do que as estimativas modernas, provavelmente porque Levanzin havia feito apenas uma refei??o por dia antes do jejum, o que pode ter afetado a forma como ele armazenava glicog?nio.

A gordura tornou-se a principal fonte de combust?vel. Ap?s o ponto de transi??o do glicog?nio, o quociente respirat?rio (a raz?o entre o CO2 produzido e o O2 consumido) caiu para valores de 0,71?0,76 ? indicando domin?ncia da gordura. Isso ? consistente com o que a pesquisa moderna sobre jejum descreve como a mudan?a para a oxida??o de gordura e a cetose.

O catabolismo proteico diminuiu ao longo do tempo. A excre??o de nitrog?nio ? indicador de quanta prote?na o organismo est? degradando ? atingiu seu pico no dia 4 e depois caiu progressivamente. Nas semanas posteriores do jejum, a perda di?ria de nitrog?nio por quilograma de peso corporal havia ca?do para aproximadamente 0,143 gramas ? bem abaixo do pico no in?cio do jejum, de 0,207 gramas. Essa adapta??o de poupan?a de prote?nas ? hoje compreendida como uma caracter?stica central da cetose, confirmada por pesquisadores posteriores, incluindo Cahill (2006, Annual Review of Nutrition) e Longo & Mattson (2014, Cell Metabolism).

A taxa metab?lica caiu significativamente. A produ??o de calor diminuiu ao longo do jejum, atingindo um m?nimo de aproximadamente 625 calorias por 24 horas na vig?sima primeira noite ? abaixo das aproximadas 836 calorias do dia 3. Isso representa uma redu??o de aproximadamente 25% na taxa metab?lica basal, consistente com a adapta??o metab?lica documentada no Experimento de Inani??o de Minnesota (Keys et al., 1950) e na pesquisa moderna sobre restri??o cal?rica (Leibel et al., 1995, NEJM).

O desempenho cognitivo se manteve. Apesar de trinta e um dias sem alimento, Levanzin n?o apresentou deteriora??o cognitiva grave. Suas respostas de associa??o de palavras permaneceram coerentes; ele subiu escadas sem instabilidade no dia 31 (fotografado como documenta??o). No dia 29, escreveu notas autobiogr?ficas de v?rias p?ginas. O desempenho variou de dia para dia, frequentemente correlacionado com o humor ? nos dias em que sua atitude mental estava animada, os resultados dos testes eram marcadamente melhores.

O rompimento do jejum representou o momento mais perigoso. Quando o jejum terminou em 14 de maio com lim?es, laranjas, mel e suco de uva, Levanzin teve c?lica intestinal grave e precisou ser brevemente hospitalizado. Isso confirmou a import?ncia cr?tica de reintroduzir os alimentos de forma gradual ? o que mais tarde seria descrito clinicamente como s?ndrome de realimenta??o (Mehanna et al., 2008, BMJ) estava presente e documentado nesse experimento de 1912, d?cadas antes da descri??o cl?nica formal.

Por Que Este Estudo Ainda ? Relevante

A Study of Prolonged Fasting de Benedict ainda ? citado em pesquisas modernas sobre metabolismo do jejum, catabolismo proteico e seguran?a da realimenta??o. As descobertas fundamentais ? poupan?a de prote?nas durante a cetose, redu??o da taxa metab?lica, seguran?a do jejum prolongado sob monitoramento, a import?ncia cr?tica de uma realimenta??o cuidadosa ? foram todas confirmadas por pesquisas subsequentes usando tecnologias ?s quais Benedict n?o tinha acesso.

Para pesquisadores do jejum, o experimento de 1912 forneceu uma base de refer?ncia excepcionalmente completa. Para qualquer pessoa curiosa sobre a hist?ria da ci?ncia do jejum, ele demonstra que a investiga??o sistem?tica e rigorosa do jejum est? em andamento h? mais de um s?culo ? muito antes de a atual onda de interesse no jejum intermitente torn?-lo um tema de ampla aten??o cient?fica e popular.


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Perguntas Frequentes

Quem foi Francis Gano Benedict? Benedict foi Diretor do Laborat?rio de Nutri??o da Institui??o Carnegie de Washington, em Boston. Ele foi um dos principais cientistas da nutri??o do in?cio do s?culo XX, respons?vel pelo desenvolvimento do calor?metro de respira??o usado neste e em muitos outros experimentos.

Por que Levanzin concordou em jejuar por 31 dias? Levanzin tinha um hist?rico pessoal com o jejum ? havia jejuado v?rias vezes antes e creditava ? pr?tica a restaura??o de sua sa?de. Ele se descrevia como motivado pela oportunidade de contribuir para o conhecimento cient?fico. Ele tamb?m estava intelectualmente engajado com as medi??es realizadas ao longo do estudo.

Um jejum de 31 dias ? seguro? Com base no estudo de Benedict e em pesquisas posteriores, um jejum prolongado dessa dura??o pode ser fisiologicamente suport?vel sob supervis?o m?dica cont?nua para um indiv?duo saud?vel. N?o ? algo a ser realizado sem orienta??o especializada, monitoramento rigoroso e realimenta??o cuidadosa afterward. O estudo de 1912 foi conduzido precisamente porque tais quest?es de seguran?a precisavam ser respondidas em condi??es controladas.

O que aconteceu com Levanzin ap?s o estudo? Ap?s o t?rmino do jejum, ele passou por um per?odo dif?cil de realimenta??o com dist?rbios intestinais e foi brevemente hospitalizado. Ele posteriormente se tornou dif?cil de gerenciar durante a recupera??o. Seu destino a longo prazo n?o est? bem documentado no registro cient?fico.

Como o estudo de 1912 se relaciona com o jejum intermitente moderno? O estudo de 1912 examinou a inani??o completa ao longo de 31 dias ? o que ? diferente das janelas de jejum de 12 a 24 horas usadas nos protocolos modernos de jejum intermitente. No entanto, os mecanismos metab?licos fundamentais ? esgotamento do glicog?nio, cetose, poupan?a de prote?nas, adapta??o metab?lica ? s?o os mesmos processos, apenas observados em um extremo que esclarece a biologia subjacente.


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Este artigo se baseia em pesquisas cient?ficas hist?ricas de 1915 e tem car?ter exclusivamente informativo ? n?o constitui aconselhamento m?dico. Consulte sempre um profissional de sa?de qualificado antes de realizar qualquer jejum prolongado.

Benedict, F.G. (1915). A Study of Prolonged Fasting. Carnegie Institution of Washington, Publication No. 203.


Este artigo ? apenas para fins informativos e n?o constitui aconselhamento m?dico. Consulte sempre um profissional de sa?de qualificado antes de iniciar qualquer protocolo de jejum, especialmente se tiver alguma condi??o de sa?de pr?-existente.

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