A Ci?ncia do Jejum de 31 Dias: O Que um Estudo Hist?rico de 1915 Revelou
Descubra o que um rigoroso estudo cient?fico de 1915 encontrou quando um homem fez jejum por 31 dias consecutivos ? e como isso se compara ? pesquisa moderna.
A Ci?ncia do Jejum de 31 Dias: O Que um Estudo Hist?rico de 1915 Revelou
O que acontece de verdade dentro do corpo humano durante um m?s inteiro de jejum? A maioria do que as pessoas acreditam sobre o jejum prolongado vem de especula??o, medo ou informa??es incompletas. A ci?ncia, no entanto, conta uma hist?ria muito mais precisa ? e ela come?a com um experimento not?vel realizado em 1912 na Carnegie Institution of Washington.
Um jejum completo de 31 dias, acompanhado por uma equipe m?dica, foi conduzido sob algumas das condi??es cient?ficas mais rigorosas j? aplicadas a um estudo de jejum humano. Os resultados, publicados em 1915 por Francis Gano Benedict, permanecem como um dos registros mais detalhados da fisiologia do jejum prolongado j? produzidos. Veja o que foi descoberto ? e o que isso significa ? luz das pesquisas modernas.
Contexto Hist?rico: O Laborat?rio de Nutri??o da Carnegie, 1912
Na primavera de 1912, um homem de 40 anos chamado Agostino Levanzin chegou ao Laborat?rio de Nutri??o em Boston, operado pela Carnegie Institution of Washington. Ele era multil?ngue, muito bem instru?do, farmac?utico com conhecimentos de medicina e direito, e tinha hist?rico de autoexperimenta??o com jejum ? incluindo um jejum de 37 dias em Malta alguns anos antes.
Levanzin concordou em passar por um jejum completo de 31 dias sob supervis?o cient?fica total. Ele n?o consumiria nada al?m de ?gua destilada. Cada aspecto mensur?vel de sua fisiologia seria monitorado por uma equipe multidisciplinar composta por m?dicos, qu?micos, psic?logos e fisiologistas.
O que tornou este estudo excepcional n?o foi apenas sua dura??o, mas seus m?todos. Os pesquisadores usaram um calor?metro de respira??o para medir a produ??o de calor diretamente. Eles coletavam e analisavam a urina dele todos os dias. Mediam press?o arterial, pulso e temperatura corporal diariamente. Realizavam testes psicol?gicos ? mem?ria, tempo de rea??o, associa??o de palavras, acuidade visual, for?a de preens?o ? do primeiro ao ?ltimo dia. M?dicos faziam exames cl?nicos completos em dias alternados ao longo de todo o per?odo.
O jejum durou de 14 de abril a 14 de maio de 1912. Os resultados foram publicados por Francis Gano Benedict (1915) em A Study of Prolonged Fasting, Carnegie Institution of Washington, Publica??o n? 203.
Fase 1: O Corpo Queima Suas Reservas de A??car (Dias 1 a 13)
No primeiro dia do jejum de Levanzin, os pesquisadores mediram a combust?o de carboidratos em 68,8 gramas. Esse era o glicog?nio ? a glicose armazenada no f?gado e nos m?sculos ? sendo quebrado como fonte de energia prim?ria.
Dia ap?s dia, esse n?mero caiu. Nos dias 10 a 13, a combust?o de carboidratos havia ca?do para aproximadamente 4 gramas por dia. Ap?s o dia 13, ela cessou efetivamente. O corpo havia esgotado completamente suas reservas de glicog?nio.
Para a maioria das pessoas que seguem uma alimenta??o t?pica hoje em dia, o esgotamento do glicog?nio acontece muito mais r?pido ? geralmente entre 24 e 48 horas de jejum. O esgotamento mais lento de Levanzin ? explicado pelo fato de que ele vinha fazendo apenas uma refei??o por dia no ano anterior ao experimento, o que mantinha suas reservas de glicog?nio em uma linha de base diferente da de algu?m que faz tr?s ou mais refei??es di?rias.
O quociente respirat?rio ? a propor??o de CO2 produzido em rela??o ao O2 consumido ? mudou drasticamente durante essa fase, confirmando a transi??o dos carboidratos para a gordura como combust?vel principal. Essa mudan?a metab?lica ? hoje bem documentada na ci?ncia moderna do jejum intermitente (Longo & Mattson, 2014, Cell Metabolism).
Fase 2: A Gordura se Torna o Combust?vel Dominante (Dias 14 a 31)
Ap?s o dia 13, o corpo de Levanzin funcionava quase inteiramente ? base de gordura. O quociente respirat?rio n?o proteico se estabilizou em uma faixa de 0,71 a 0,76, com uma medi??o t?o baixa quanto 0,68 ? indicando oxida??o profunda de gordura. Para efeito de compara??o, a combust?o pura de gordura produz um quociente respirat?rio de aproximadamente 0,70.
Essa transi??o ? o que os pesquisadores modernos chamam de cetose nutricional. ? medida que a gordura ? quebrada, o f?gado produz corpos cet?nicos ? principalmente o beta-hidroxibutirato ? que o c?rebro e outros ?rg?os utilizam como alternativa ? glicose. A equipe de Benedict detectou ?cido beta-hidroxibut?rico na urina de Levanzin ao longo de todo o jejum, tornando este um dos primeiros registros cient?ficos sistem?ticos da cetose nutricional em um jejum humano prolongado.
As pesquisas modernas confirmam que as cetonas n?o s?o simplesmente um combust?vel de emerg?ncia. Elas parecem ser um combust?vel preferencial para muitos tecidos, e o c?rebro ? que n?o consegue queimar gordura diretamente ? utiliza cetonas com efici?ncia. A revis?o abrangente de George Cahill (Cahill GF, 2006, Annual Review of Nutrition) estabeleceu que, durante o jejum prolongado, os corpos cet?nicos podem suprir at? 60?70% das necessidades energ?ticas do c?rebro.
O Que Aconteceu com os M?sculos: O Efeito Poupador de Prote?nas
Uma das descobertas mais importantes do estudo de 1915 foi o que aconteceu com as prote?nas ? especificamente, o quanto o corpo as conservou durante o jejum.
O indicador indireto da degrada??o proteica ? a excre??o de nitrog?nio na urina. Cada grama de nitrog?nio excretado representa aproximadamente 6,25 gramas de prote?na catabolizada. No estudo de Benedict, a excre??o de nitrog?nio atingiu seu pico no dia 4 do jejum ? e depois caiu progressivamente ao longo dos 27 dias seguintes.
Nos dias finais do jejum, a excre??o de nitrog?nio havia ca?do para aproximadamente 0,143 gramas por quilograma de peso corporal por dia. Ap?s o in?cio da realimenta??o, caiu ainda mais para 0,058 gramas por quilograma ? o corpo priorizando a reconstru??o dos tecidos em vez da excre??o.
Essa adapta??o poupadora de prote?nas ? uma caracter?stica fundamental do jejum prolongado que o distingue da restri??o cal?rica simples ou da inani??o. O corpo protege preferencialmente a massa magra, queimando gordura e reduzindo o catabolismo proteico ? medida que o jejum avan?a. Isso se alinha ao que os pesquisadores modernos descrevem como o mecanismo de cetose poupadora de prote?nas (Cahill GF, 2006).
Adapta??o Metab?lica: O Corpo Desacelera Para Conservar Energia
O estudo de 1915 registrou uma descoberta que os nutricionistas modernos confirmaram repetidamente: durante o jejum prolongado, o corpo reduz sua taxa metab?lica.
A produ??o total de calor no calor?metro de respira??o caiu de aproximadamente 836 calorias por 24 horas no dia 3 para um m?nimo de aproximadamente 625 calorias por per?odo de 24 horas na noite do dia 21 ? uma redu??o de cerca de 25%. Ap?s esse m?nimo, a produ??o de calor subiu ligeiramente nos dias finais por raz?es que os pesquisadores n?o conseguiram explicar completamente.
Uma redu??o de 25% na taxa metab?lica basal durante o jejum prolongado reflete o que pesquisas subsequentes documentaram. Leibel et al. (1995, New England Journal of Medicine) mostraram que a adapta??o metab?lica ? uma caracter?stica consistente tanto da restri??o cal?rica quanto da priva??o prolongada de alimento. O Experimento de Inani??o de Minnesota de Ancel Keys (1950) documentou descobertas semelhantes em condi??es diferentes.
Essa adapta??o metab?lica explica por que o jejum prolongado pode atingir um plat? em termos de perda de peso di?ria nas semanas intermedi?rias ? n?o porque o jejum parou de funcionar, mas porque o corpo se tornou mais eficiente.
Altera??es Cardiovasculares
O monitoramento di?rio do pulso e da press?o arterial de Levanzin revelou um padr?o consistente: ambos diminu?ram ? medida que o jejum avan?ava. A frequ?ncia do pulso caiu de um m?ximo de 100 batimentos por minuto no in?cio do jejum para 73 batimentos por minuto no dia 23. Tanto a press?o sist?lica quanto a diast?lica diminu?ram.
Essas altera??es cardiovasculares refletem a redu??o da demanda metab?lica sobre o cora??o. Com menos alimento para processar, menos glicose para gerenciar e n?veis mais baixos de insulina, a carga de trabalho do cora??o diminui. Pesquisas modernas sobre jejum terap?utico documentaram as mesmas adapta??es cardiovasculares (Wilhelmi de Toledo et al., 2019, Nutrients).
Crucialmente, nenhuma arritmia perigosa foi registrada. A fun??o card?aca foi mantida ao longo de todo o jejum de 31 dias, embora as bulhas card?acas tenham se tornado ligeiramente menos distintas na segunda ou terceira semana ? uma descoberta que os pesquisadores atribu?ram ? redu??o do enchimento card?aco, e n?o a uma altera??o estrutural.
Desempenho Mental: O Que Realmente Aconteceu com a Mente Dele
Esta pode ser a descoberta mais surpreendente do estudo de 1915: a fun??o cognitiva de Levanzin foi mantida ao longo de todo o jejum de 31 dias.
Os pesquisadores realizaram testes psicol?gicos di?rios durante todo o per?odo. Mem?ria para palavras, tempos de rea??o, velocidade e qualidade de associa??o de palavras, acuidade visual ? tudo flutuava de dia para dia, mas n?o mostrava decl?nio progressivo consistente. O pr?prio sujeito descreveu per?odos de clareza mental excepcional alternando com dias de sonol?ncia e baixa motiva??o.
Os pesquisadores conclu?ram que a atitude mental era a maior vari?vel isolada em seu desempenho cognitivo. Nos dias em que Levanzin estava animado e engajado, seus resultados nos testes eram bons. Nos dias em que estava irritado ou preocupado, ca?am ? independentemente de em qual dia do jejum ele se encontrava.
No dia 29 ? dois dias antes do fim do jejum ? ele escreveu notas autobiogr?ficas detalhadas, coerentes e de v?rias p?ginas. No dia 31, foi fotografado subindo escadas, com os pesquisadores observando "nenhuma evid?ncia de instabilidade".
A neuroci?ncia moderna explica essa cogni??o preservada por meio das cetonas. ? medida que o beta-hidroxibutirato atravessa a barreira hematoencef?lica e fornece uma fonte de combust?vel eficiente, a fun??o cognitiva ? mantida mesmo com a queda da disponibilidade de glicose. Mattson et al. (2018, Nature Reviews Neuroscience) documentaram como o jejum intermitente apoia a sa?de cerebral por meio do fornecimento de cetonas, da regula??o positiva do BDNF e da redu??o da neuroinflama??o.
A Realimenta??o: O Momento Mais Perigoso
No ?ltimo dia do jejum, o protocolo de realimenta??o come?ou com dois lim?es inteiros, seguidos de laranjas, aproximadamente 300 gramas de mel e cerca de um litro de suco de uva.
O resultado foi uma c?lica intensa e ang?stia intestinal severa o suficiente para exigir uma breve hospitaliza??o. Este foi o evento adverso mais significativo do ponto de vista m?dico em todo o experimento ? e ocorreu n?o durante o jejum, mas durante a realimenta??o.
Essa experi?ncia de 1912 antecipou o que os cl?nicos s? formalizariam ap?s a Segunda Guerra Mundial: a s?ndrome de realimenta??o. A reintrodu??o s?bita de carboidratos ap?s um jejum prolongado provoca uma r?pida mudan?a nos eletr?litos ? particularmente no fosfato ? ? medida que o corpo volta ao metabolismo de carboidratos. Em casos graves, isso pode causar complica??es card?acas e respirat?rias. Mehanna et al. (2008, BMJ) forneceram o quadro cl?nico moderno para entender e prevenir a s?ndrome de realimenta??o.
A li??o de 1912 permanece completamente v?lida hoje: romper um jejum prolongado deve ser feito de forma gradual, com pequenas quantidades de alimentos de f?cil digest?o, ao longo de v?rios dias ? e n?o com uma refei??o farta ou alimentos ricos em carboidratos.
O Que o Estudo de 1915 Ainda Nos Ensina
Mais de um s?culo ap?s o estudo de Benedict, suas descobertas centrais foram validadas pela ci?ncia moderna:
- O corpo passa por uma transi??o previs?vel de combust?vel, do glicog?nio para a gordura, geralmente conclu?da nas primeiras duas semanas
- A cetose fornece um combust?vel alternativo eficiente para o c?rebro e o corpo durante o jejum prolongado
- O catabolismo proteico diminui progressivamente por meio da cetose poupadora de prote?nas
- A taxa metab?lica se adapta para baixo, reduzindo o gasto energ?tico
- A fun??o cognitiva pode ser mantida durante o jejum prolongado
- A realimenta??o ? a fase de maior risco de um jejum estendido
Para qualquer pessoa que considere fazer um jejum estendido hoje, o experimento de 1912 continua sendo uma das evid?ncias mais convincentes de que o corpo humano ? muito mais capaz de lidar com a aus?ncia prolongada de alimento do que o medo popular sugere ? quando conduzido com cuidado e encerrado corretamente.
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Perguntas Frequentes
Quem foi o sujeito do estudo de jejum de Benedict de 1915? O sujeito foi Agostino Levanzin, um farmac?utico multil?ngue de 40 anos, natural de Malta. Ele fez jejum por 31 dias completos no Laborat?rio de Nutri??o da Carnegie Institution em Boston, em 1912, bebendo apenas ?gua destilada. Os resultados foram publicados pelo pesquisador Francis Gano Benedict em 1915.
Quanto peso Agostino Levanzin perdeu durante o jejum de 31 dias? Ele perdeu aproximadamente 11,3 quilogramas (24,9 libras) ao longo dos 31 dias. A taxa de perda de peso di?ria foi mais alta na primeira semana (devido ? deple??o de ?gua e glicog?nio) e progressivamente mais lenta nas semanas seguintes, ? medida que a adapta??o metab?lica ocorreu.
Quando o corpo passou a queimar gordura em vez de a??car? As medi??es de Benedict mostraram a combust?o de carboidratos caindo de 68,8 gramas no dia 1 para efetivamente zero no dia 13. A partir desse ponto, a gordura se tornou o combust?vel amplamente dominante. Para a maioria das pessoas hoje (que consomem mais carboidratos do que Levanzin consumia), o esgotamento do glicog?nio normalmente ocorre entre 24 e 48 horas.
O jejum de 31 dias danificou significativamente os m?sculos de Levanzin? O catabolismo proteico ? medido pela excre??o de nitrog?nio ? atingiu seu pico no dia 4 e depois caiu progressivamente ao longo dos 27 dias restantes. Esse efeito poupador de prote?nas ? uma caracter?stica do jejum prolongado, pois as cetonas reduzem a necessidade do corpo de degradar prote?nas para obter combust?vel. Ele ainda conseguia subir escadas sem dificuldade no ?ltimo dia do jejum.
O que causou a hospitaliza??o durante a realimenta??o? O primeiro dia de realimenta??o ? que incluiu lim?es inteiros, laranjas, grandes quantidades de mel e suco de uva ? causou c?licas intensas e ang?stia intestinal severa. Isso ? consistente com o que a medicina moderna agora chama de s?ndrome de realimenta??o: a reintrodu??o s?bita de carboidratos ap?s um jejum prolongado provoca altera??es eletrol?ticas (particularmente de fosfato) que podem causar complica??es gastrointestinais significativas e, em casos graves, card?acas.
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Este artigo baseia-se em pesquisa cient?fica hist?rica de 1915 e tem fins exclusivamente informativos ? n?o constitui aconselhamento m?dico. Sempre consulte um profissional de sa?de qualificado antes de realizar qualquer jejum prolongado.
Benedict, F.G. (1915). A Study of Prolonged Fasting. Carnegie Institution of Washington, Publication No. 203.
Este artigo ? apenas para fins informativos e n?o constitui aconselhamento m?dico. Consulte sempre um profissional de sa?de qualificado antes de iniciar qualquer protocolo de jejum, especialmente se tiver alguma condi??o de sa?de pr?-existente.
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